Na Câmara de Fortaleza, a inclusão passou a estruturar políticas públicas que atravessam fases da vida. Do acolhimento na infância ao ingresso no mercado de trabalho, iniciativas da gestão têm redesenhado trajetórias e, sobretudo, combatido um problema silencioso: a solidão de pessoas com síndrome de Down.
No centro dessa transformação está o Espaço Evoluir, o primeiro centro de atendimento multidisciplinar para crianças e adolescentes com síndrome de Down e autismo criado no âmbito de uma Câmara Municipal no Brasil.
Inaugurado em setembro de 2025, o espaço oferece serviços como psicologia, fonoaudiologia, terapia ocupacional, musicoterapia e neuropediatria a filhos e dependentes de servidores da Casa. Uma iniciativa que ganha ainda mais significado no Dia Internacional da Síndrome de Down, celebrado em 21 de março.
Onde tudo começa
No Espaço Evoluir, o desenvolvimento acontece todos os dias e vai muito além do aspecto clínico. É ali que crianças começam a construir autonomia, vínculos e confiança. Davi Thiago, de 9 anos, é um exemplo dessa mudança. A mãe, Emília Maria, soube ainda na gestação que o filho teria síndrome de Down. “Já estávamos esperando por ele cheios de amor”, lembra.
Após um período sem terapias, o retorno ao acompanhamento multidisciplinar trouxe avanços que se refletem na rotina. “Ele está mais comunicativo, independente, mais concentrado. Antes não comia só, não escovava os dentes. Agora faz tudo isso.” Na escola, o impacto foi imediato: “Ele era muito envergonhado e hoje já está se comunicando bem melhor.” São pequenas conquistas que, na prática, significam autonomia e pertencimento.
O diferencial do Espaço Evoluir é que ele vai além da criança, alcançando as famílias, oferecendo suporte integral, inclusive acompanhamento psiquiátrico e psicológico. É o caso de Carina de Carvalho, mãe de Matheus Carvalho. “Eles não cuidam só do filho, cuidam da mãe também. Tenho depressão e estou sendo acompanhada lá, e isso tem me ajudado muito. Estou muito satisfeita com esse espaço, porque ele acolhe a gente e realmente promove a inclusão.”
Com síndrome de Down, Transtorno do Espectro Autista e uma condição rara no fêmur, Matheus passou dois anos sem terapias e começou a se isolar. “Ele não queria mais sair de casa, não queria ficar no meio das pessoas”, conta a mãe.
Foi com o acompanhamento do Espaço Evoluir que o comportamento de Matheus se transformou. “Hoje ele está mais sociável. Quando eu digo que vamos para o Evoluir, ele se anima e, na hora de ir embora, não quer vir. Tem participado das atividades, interagido mais e se mostrado cada vez mais aberto ao mundo ao redor”, relata Carina.
Inclusão que chega ao trabalho
No Plenário Fausto Arruda, entre votações e documentos, uma presença chama atenção, não pelo diferente, mas pelo essencial: o pertencimento. Há cerca de um ano, Anna Carolina passou a integrar o cargo de assessora legislativa da Câmara de Fortaleza e, desde então, tem ajudado a transformar não apenas o ambiente de trabalho, mas também a forma como colegas enxergam a inclusão.
Curiosa, participativa e dedicada, Anna sempre pergunta quando surge alguma dúvida, observa e demonstra interesse em aprender sempre mais. “Eu, por mim, eu quero fazer um monte de coisa. Eu gosto de trabalhar. Eu valorizo sempre. Quero dar um futuro melhor aqui para minha casa, no sentido de começar o ano, viver bem, ter autoestima”, diz Anna, com a simplicidade de quem carrega grandes sonhos. Entre eles, ser médica e modelo.
No cerimonial, Victor Diniz Noronha, conhecido carinhosamente como “Vitinho” reforça o sentimento de pertencimento real no ambiente de trabalho. “Para mim, o maior prazer é trabalhar com dignidade e igualdade. Tenho muito orgulho de fazer parte de um ambiente que valoriza a diversidade e me dá a oportunidade de crescer dentro de uma cultura inclusiva, como servidor. No cerimonial, encontro aprendizado todos os dias, ao lado de uma equipe que me acolhe com confiança e lealdade, e por isso sou muito grato”, reforça.
Convivência que transforma olhares
Para o chefe do Departamento Legislativo, Amilton Loyola, a convivência com Anna Carolina transformou concepções. “Trabalhar com a Carol tem sido mais um aprendizado para mim do que para ela”, afirma. “Quando a gente olha de fora, há respeito, carinho e cuidado, mas é diferente quando você passa a conviver. A convivência muda tudo. A gente passa a entender de verdade o que é inclusão. Hoje, olhamos para a Carol como uma colega de trabalho, alguém que contribui como qualquer outro servidor.”
A experiência também trouxe reflexões para além do ambiente profissional. “A Carol fez a gente repensar o que é limite. Porque, no fim das contas, o limite muitas vezes está na nossa cabeça. Ela mostra que depende muito mais da gente do que das circunstâncias.”
Essa mudança de olhar também foi sentida pela servidora do Cerimonial, Raíssa. Ela se surpreendeu com a desenvoltura da colega, sua capacidade de criar vínculos e a naturalidade com que fez amizades. “Quando conheci a Carol, fiquei muito surpresa com o quanto ela era comunicativa e como fez amizades rapidamente, muito mais rápido do que eu”, conta
Foi no dia a dia que Raíssa Rocha passou a enxergar as características individuais de Carol, sua leveza, sua alegria e seus sonhos. “A gente acha que não ser preconceituoso se refere apenas a não tratar mal, mas não. Tem a ver com conhecer as outras dimensões que essas pessoas têm. Elas têm características individuais, não são todas iguais. Foi muito legal conhecer a Carol e perceber cada nuance dela ao passar do tempo. Ela pergunta pelos colegas, sente falta, cria laços e relações de verdade”, conta.
A adaptação inicial deu lugar à naturalidade. Com o tempo, o que antes era cautela se transformou em convivência real. Integrado à equipe, Vitinho participa da rotina, assume responsabilidades e contribui para o ambiente de trabalho, não apenas com suas funções, mas também com leveza e bom humor, que ajudam a tornar o dia a dia mais leve.
Para o servidor do Cerimonial, Iago Mota, a inclusão só é completa quando a participação é real. “No começo, a gente pisava em ovos. Hoje, a gente conversa de igual para igual. Ele não está aqui só para passar o tempo. Ele tem função, é cobrado, erra, e aprende, como qualquer outro servidor”, destaca, mencionando Vitinho.
Iago fala que a mudança foi interna. “A oportunidade que a gente acha que está dando, na verdade, é a gente que está recebendo. Então, acho que, além do respeito, a gente precisa quebrar preconceitos, entender as limitações deles, mas não limitando ainda mais eles”. A inclusão não transforma apenas quem chega, ela transforma principalmente quem aprende a acolher.
Contra a solidão, o direito de pertencer
O tema do Dia Internacional da Síndrome de Down 2026, definido pela Down Syndrome International, é “Together against Loneliness” — Juntos contra a solidão. A campanha destaca que a presença física não é suficiente; é necessário criar relações significativas e acolhedoras para evitar a solidão.
Segundo a Dra. Pauline Habib, presidente da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais de Fortaleza (Apae Fortaleza) e mãe de Anna Carolina, a solidão enfrentada pelas pessoas com deficiência está diretamente ligada à falta de convivência e de oportunidades de participação social.
“A solidão não é só estar sozinho. É não conviver, não participar, não ter vínculos. As pessoas com deficiência precisam estar na escola, no trabalho e nas relações. Eles são parte da sociedade e devem se sentir pertencentes”, afirmou Pauline.
Fotos: Érika Fonseca, Luciano Melo e Mateus Dantas