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Estado do Ceará

Das pinturas em cerâmica às garrafas de areia: quem são os artesãos que mantêm viva a tradição do Ceará


Dia 19 de março é dia de celebrar os artesãos e artesãs cearenses. Com a proximidade da data, a Secretaria da Proteção Social divulga levantamento da Central de Artesanato do Ceará (CeArt) que traça o perfil de mais de 21 mil artesãos ativos no estado, uma rede majoritariamente feminina que transforma saberes tradicionais em trabalho, renda e identidade cultural.

A primeira vez que Marlice Soares pegou no pincel para pintar um tecido tinha apenas 12 anos. Era ainda adolescente quando começou a experimentar as primeiras cores sobre o pano. Hoje, aos 51 anos, a artesã de Fortaleza acumula décadas dedicadas ao trabalho manual. Aprendeu diferentes técnicas, da pintura em tecido à modelagem em massa cerâmica, conhecida como biscuit, passando pela pirografia, técnica em que o desenho é feito com calor sobre a superfície das peças. “Desde adolescente eu trabalho com artesanato. Comecei pintando tecido e depois fui aprendendo outras técnicas”, conta.

Histórias como a de Marlice ajudam a revelar quem são os artesãos do Ceará. O estado possui atualmente 21.849 artesãos ativos na Central de Artesanato do Ceará (CeArt), ou seja, em comercialização direta e participando de editais e assessoramentos. Essas quase 22 mil pessoas formam uma rede produtiva que mantém viva uma das expressões culturais mais fortes do território cearense.

Entre eles estão nomes reconhecidos dentro e fora do estado, como Mestre Espedito Seleiro, referência nacional no trabalho em couro no Cariri; Mestre José Lourenço, conhecido por suas obras em xilogravura; Mestra Maria Beatriz Andrade, guardiã da renda de labirinto; e Mestra Raimunda Lúcia, referência na renda de bilro. São exemplos de como o artesanato cearense atravessa gerações e se consolida como patrimônio cultural do estado.

Entre as tipologias de artesãos ativos cadastrados, os trabalhos em fios e tecidos são os mais representativos, abrangendo 20.637 artesãos. Em seguida, destacam-se as produções que utilizam fibras vegetais, com 2.356 cadastros. O registro inclui, ainda, artesãos que trabalham com materiais sintéticos (1.551), madeira (1.160), ceras e massas (688), e argila (641).

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Quando se fala em gênero, o levantamento indica que 76,7% são mulheres. Os dados da CeArt mostram que o artesanato no Ceará é uma atividade marcada pela experiência acumulada ao longo da vida. A maior concentração de artesãos está entre 40 e 59 anos, faixa que reúne 10.052 profissionais, o equivalente a 46% dos artesãos ativos.

Em muitas comunidades, são as mulheres que mantêm vivas técnicas tradicionais como bordado, crochê, renda e labirinto. A bordadeira Maria Elisângela da Silva, de Aracati, é um exemplo. Há cerca de dois anos, ela chegou ao projeto Canoa Mulher sem saber bordar. O convite veio por meio de uma amiga da igreja. “Eu cheguei sem saber nada. As meninas me ensinaram do zero. Cada ponto que eu aprendia me deixava muito emocionada”, conta. Com o tempo, aprendeu técnicas como ponto corrente, ponto haste, ponto cheio e rococó.

Entre os artesãos ativos no Ceará também estão profissionais que aprenderam o ofício observando os mais antigos. É o caso de Carlos Eduardo da Rocha, de 45 anos, que trabalha com desenhos feitos com areia colorida dentro de garrafas. Ele começou a aprender a técnica ainda jovem, observando outros artesãos na região de Ponta Grossa, no litoral cearense. “Todo mundo ia para uma casinha que hoje é considerada um ponto pioneiro ali na região do Carneiro. A gente passava horas olhando e treinando. Os mais antigos ensinavam e a gente ia aprendendo com eles.”

Para muitas pessoas, o artesanato representa um caminho de reconstrução pessoal e autonomia. É o caso da mestra da cultura Maria Beatriz Andrade da Cunha, dona Bia, nascida em 1939. Ainda jovem, trabalhou como empregada doméstica e enfrentou diferentes dificuldades ao longo da vida. Depois de anos de trabalho doméstico, decidiu retomar o artesanato aprendido na infância. Foi no trabalho com o labirinto que encontrou uma nova forma de autonomia e dignidade.

Em um período delicado, passou a integrar grupos de mulheres que viajavam em busca de trabalho com renda de labirinto. Com ajuda de uma madrinha, conseguiu o material necessário para começar a produzir. “Eu sabia que aquilo não era riqueza fácil, mas também não era pouco. Era fruto de muito esforço”, lembra.

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A vice-governadora e secretária da Proteção Social, Jade Romero, destaca a importância de conhecer o público para direcionar as políticas sociais. “Saber da idade, escolaridade e gênero nos permite orientar o trabalho para necessidades específicas desse público. O Governo do Estado tem investido em ações que melhorem a capacidade produtiva e a geração de renda dos artesãos e artesãs cearenses. Queremos avançar cada vez mais nesse trabalho”, pontua.

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