A oportunidade de representar os colegas de escola e apresentar propostas que retratam demandas do dia a dia motivou os jovens da Escola Municipal de Tempo Integral (EMTI) Prof. Antônio Girão Barroso, no Jangurussu, a participar do projeto Parla, Jovem!. A partir do olhar atento ao cotidiano escolar e às barreiras invisíveis da periferia, Ana Júlia, Pedro Rhian, Kamelly Vitoria e Julio Sávio elaboraram e defendem iniciativas que os elegeram jovens vereadores.
Sonhos reais, tecnologia e vontade de aprender
Na rotina da periferia, o futuro se constrói passo a passo. Pedro Rhian, de 14 anos, mora no Conjunto Palmeiras com a mãe, que é atendente de telemarketing e também trabalha com degustação em supermercados, e o padrasto, dono de uma retífica de motos no Centro. Acompanhando as transformações do mundo digital, ele criou o projeto Conectando ideias: Robótica nas Escolas, com o objetivo de incluir a robótica na rotina das turmas do 1º ao 9º ano.

“Hoje a gente vive em um mundo muito tecnológico, e a tecnologia influencia na educação, mercado de trabalho, comunicação e resolução de problemas. E a robótica, eu quero implantar ela para poder ajudar mais nisso”, conta Pedro, lembrando também da importância do aprendizado para as famílias do bairro: “Esses alunos vão desenvolver senso crítico, resolução de problemas, vão trabalhar mais em equipe, vão poder colocar em prática o conhecimento.”
Quem também sabe o valor do esforço diário é Kamelly Vitoria, de 14 anos, moradora do Conjunto Aldemir Martins. Filha de uma cuidadora de idosos e de um instalador de ar-condicionado, a jovem desdobra seu dia a dia entre as aulas em tempo integral, o jiu-jitsu que ensina para crianças durante a semana e, aos fins de semana, se dedica à sua carreira profissional na área de estética, atuando como designer de cílios.

Pensando em quem não tem oportunidade de aprender coisas novas fora da escola, ela criou o projeto Trilha da Inovação.
“O meu projeto consiste em disponibilizar aulas de robótica, informática e línguas estrangeiras modernas para os alunos de tempo integral, de escolas municipais de tempo integral. Porque é algo que a gente sabe que vai levar pra vida toda. E muitos alunos não têm esse conhecimento básico. Às vezes, por não ter condições ou algo assim do tipo”, explica Kamelly.
Cuidado com o outro e portas abertas
Garantir um ambiente de convivência seguro foi o motivo para o projeto de Ana Júlia Guerra Bento, de 14 anos. Filha de uma auxiliar administrativa e de um instalador de internet, Ana vive no Jangurussu com a família e a avó, que passou a morar com eles recentemente. O projeto surgiu de uma experiência real e dolorosa na própria sala de aula. Ana Júlia testemunhou duas colegas de classe quebrarem o braço no mesmo mês e percebeu que ninguém ao redor sabia exatamente o que fazer.

Ana Júlia propôs o Programa Aluno Seguro para ensinar noções de primeiros socorros aos estudantes.
“Ele visa implementar os primeiros socorros para os alunos através de aulas práticas, de cursos online, através de aulas audiovisuais, e ele busca prevenir acidentes dentro do local escolar, justamente porque, embora, nós tenhamos a formação dos funcionários, devido aos primeiros socorros, são muitos poucos funcionários para muitos alunos”, reflete a jovem, reforçando que o aprendizado vai além das paredes da sala: “Conhecimento é algo que você leva para o resto da sua vida, então vai ser algo que você vai levar para dentro de casa, vai levar para seu grupo de amigos, e inclusive vai poder levar isso para sua vida adulta.”
Para Julio Sávio, de 15 anos, a preocupação foi garantir que todo mundo possa circular e conhecer os cantos da cidade. Morador do Conjunto Maria Tomásia e filho mais velho de um frentista e de uma dona de casa, Julio desenhou o projeto Rota do Conhecimento focado em quem tem deficiência ou mobilidade reduzida.

“Tem como principal objetivo dar acessibilidade a todos os estudantes da rede pública de Fortaleza que possuem deficiência ou mobilidade reduzida aos locais históricos, culturais, científicos e educacionais na cidade, sendo eles museus, teatros, bibliotecas, centros culturais, universidades”, explica o estudante. “O impacto que ele vai causar é justamente a oportunidade desses estudantes conhecerem esses locais para a aprendizagem que eles vão desenvolvendo da sala de aula.”
Uma semente para a vida toda
A vivência na Câmara de Fortaleza aproxima os jovens do papel ativo de cidadãos que olham para a sua própria realidade e tentam fazer a diferença no lugar onde vivem. A experiência de participar de uma eleição foi muito rica para eles, que entendem agora, na prática, o que é cidadania, pois cada voto recebido nos corredores da escola virou um compromisso sério de representatividade.
Designer: Monalisa Castro


