A eleição de 2026 no Ceará começa a apresentar um fenômeno que pode influenciar diretamente a disputa estadual: a possibilidade de eleitores escolherem Lula (PT) para a Presidência da República e Ciro Gomes (PSDB) para o Governo do Estado.
A combinação é defendida publicamente por Mauro Benevides Filho (União Brasil), coordenador do plano de governo de Ciro. Em entrevista ao UOL, o deputado afirmou apoiar Lula nacionalmente e, simultaneamente, trabalhar pela candidatura de Ciro no Ceará. Ele chegou a defender explicitamente o voto cruzado entre os dois candidatos.
O movimento ocorre em um cenário eleitoral no qual Ciro aparece competitivo na disputa estadual. Pesquisa Datafolha realizada entre 10 e 12 de agosto, com 1.022 entrevistados, registrou Ciro com 52% das intenções de voto no primeiro turno para o Governo do Ceará, diante de 33% de Elmano de Freitas (PT). O levantamento foi registrado no TSE sob o protocolo BR-00994/2026.
Outro levantamento, do Ipsos-Ipec, realizado entre 14 e 17 de agosto com 800 eleitores, encontrou cenário diferente, mas também apontou Ciro à frente: 43% contra 35% de Elmano no primeiro turno. A pesquisa foi registrada no TSE sob o número BR-06231/2026.
Na eleição presidencial, Lula mantém uma presença eleitoral relevante no Ceará e no Nordeste. O Datafolha divulgado em 21 de agosto mostrou Lula com 39% das intenções de voto no primeiro turno nacional, enquanto Flávio Bolsonaro (PL) apareceu com 33%. O levantamento ouviu 2.058 pessoas em 128 municípios e foi registrado sob o código BR-04496/2026.
Essa diferença entre as disputas nacional e estadual abre espaço para uma escolha independente entre os dois níveis. Em vez de considerar que o voto para presidente e governador precisa necessariamente acompanhar a mesma orientação política, o eleitor pode fazer escolhas distintas para cada cargo.
Camilo entra no debate — e tenta fechar a conta
A discussão ganhou um novo capítulo neste domingo (23), quando o senador Camilo Santana (PT) publicou um vídeo nas redes sociais direcionado justamente ao eleitor que pretende votar em Lula para presidente e Ciro para governador.
Na gravação, Camilo resgata declarações anteriores de Ciro com críticas a Lula e apresenta os trechos como argumento contra a combinação dos dois votos. Ao final, o senador é direto ao defender que quem vota em Lula não vote em Ciro “de jeito nenhum” e reforça que o candidato de Lula ao Governo do Ceará é Elmano de Freitas.
A mensagem de Camilo transforma o voto cruzado em um dos alvos da estratégia petista: se parte do eleitorado pretende separar as duas escolhas, a campanha de Elmano tenta convencer esse eleitor de que Lula e o candidato petista ao Governo devem caminhar juntos.
Em outras palavras, a disputa começa a ganhar uma curiosa batalha pela combinação de votos: de um lado, aliados de Ciro dizem que é perfeitamente possível votar em Lula para presidente e no tucano para governador; de outro, Camilo tenta convencer o eleitor de que, se a escolha for Lula, o caminho para o Governo passa necessariamente por Elmano.
O debate ganhou dimensão política depois que Lula retirou Mauro Benevides Filho da vice-liderança do governo na Câmara. O deputado coordena o plano de governo de Ciro e havia declarado apoio simultâneo às duas candidaturas. A decisão foi formalizada por despacho publicado no Diário Oficial da União em 20 de agosto.
O chamado voto cruzado, entretanto, não significa necessariamente que todos os eleitores de Lula estejam dispostos a votar em Ciro, nem que todos os apoiadores de Ciro mantenham a mesma escolha na eleição presidencial. As pesquisas divulgadas até agora medem as intenções para cada cargo separadamente; elas não permitem, por si só, determinar o tamanho exato do eleitorado que fará a combinação Lula-presidente/Ciro-governador.
É justamente aí que está uma das incógnitas da eleição cearense. Ciro pode conquistar votos de eleitores que continuam apoiando Lula para presidente? Elmano conseguirá transformar a preferência por Lula em votos automáticos para sua candidatura? Ou o eleitor simplesmente vai tratar cada cargo como uma escolha diferente?
O cenário mais recente reforça a importância dessa disputa. A pesquisa RealTime Big Data, realizada entre 15 e 19 de agosto, mostrou Ciro e Elmano empatados em 44% no primeiro turno, enquanto o Ipsos-Ipec, divulgado no mesmo período, apontou Ciro com 43% e Elmano com 35%.
As pesquisas, portanto, apresentam fotografias diferentes da corrida, mas ajudam a explicar por que a disputa pelo eleitor lulista ganhou tanta importância no discurso dos dois grupos.
No fim, a questão talvez seja menos sobre o que dizem as lideranças e mais sobre o que o eleitor fará diante da urna.
Porque, até aqui, políticos de lados diferentes parecem concordar em uma coisa: o eleitor pode até ter dois votos, mas cada grupo quer convencê-lo de que eles deveriam andar juntos.
A pergunta que fica é: quem vota em Lula para presidente precisa, necessariamente, votar em Elmano para governador — ou o eleitor cearense pode escolher Ciro sem mudar seu voto para a Presidência?


