Há 15 anos, um jovem entrou com dois revólveres na Escola Municipal Tasso da Silveira, no Rio de Janeiro, atirou e matou 12 alunos de 13 a 15 anos. Feriu mais10 pessoas e cometeu suicídio depois de ser baleado por policiais.
Os motivos por trás do Massacre de Realengo, como ficou conhecido o crime ocorrido no bairro da zona norte, sempre estiveram no centro das discussões. O assassino deixou vídeos e uma carta de suicídio alegando, entre outros fatores, que sofreu bullying (violência e intimidação frequentes) durante o período em que estudou na escola.
Boa parte dos analistas e das autoridades focaram nessa versão, o que motivou a criação do Dia Nacional de Combate ao Bullying em 7 de abril, por meio da
, para conscientização sobre o tema.
Um grupo de pesquisadoras e ativistas feministas entende que um ponto central do crime foi negligenciado durante todos esses anos: a misoginia, termo usado para categorizar o ódio contra as mulheres e as ideias de superioridade masculina.
Nesse sentido, um conjunto de elementos permite identificar questões de gênero no crime, a começar pela diferençano número de vítimas: foram 10 meninas e 2 meninos.
“As explicações que surgiram na mídia à época chegaram a ser ridículas. Morreram mais meninas porque elas correm mais devagar ou porque costumam ser boas alunas e sentar nas primeiras fileiras da sala”, lembra Lola Aronovich, pesquisadora e ativista feminista.
“As testemunhas relataram que o assassino atirava nas meninas para matar e nos meninos para ferir. Além disso, pelo que ele deixou gravado e escrito, era claramente umincel[celibatário involuntário, que não consegue ter relacionamentos sexuais]
. Nos grupos masculinistas que eu acompanhava no Orkut na época, o massacre era comemorado e o assassino visto como um herói. Diziam que lembravam de vê-lo frequentando os fóruns. Tudo aponta para um crime movido por misoginia”, acrescenta.
A pesquisadora Cleo Garcia, doutora em educação pela Universidade de Campinas (Unicamp), estuda episódios de violência extrema em escolas no Brasil.
conduzido por ela identificou 40 ataques entre 2001 e 2024, com aumento expressivo recente: 25 casos ocorreram entre 2022 e 2024. Todos foram cometidos por homens.
Segundo Garcia, esses crimes frequentemente estão associados a crenças opressoras, como misoginia, racismo e ideologias extremistas. Ela destaca que comunidades
desempenham papel relevante no processo de estimular ataques.
Esses espaços intensificam ressentimentos, frustrações e raiva. Muitos se consideramvítimas de injustiças sociais e veem a diversidade como uma ameaça.
“A misoginia é um fenômeno multifatorial. Por um lado, há questões psicológicas de cada um que passam a ser exploradas nessas comunidades. Quem tem baixa tolerância à frustração é mais vulnerável às ideias de ódio. Também é comum entre pessoas que têm dificuldade de assumir responsabilidades. O misógino sempre coloca a culpa nas meninas”, diz Cleo.
Fonte: Agência Brasil – EBC



