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Do Ceará à Austrália: o que aconteceu em cidades que receberam — ou barraram — grandes data centers?

Enquanto o Ceará avança com o megaprojeto da ByteDance, dona do TikTok, casos recentes no exterior mostram que água, energia, ruído, geradores, uso do território e participação das comunidades já provocam conflitos em diferentes partes do mundo

A expansão dos data centers acompanha a corrida global pela inteligência artificial. Por trás dos serviços digitais, porém, existe uma infraestrutura física de grande porte, que precisa de energia, sistemas de refrigeração, terrenos, conexão de alta capacidade e, em alguns projetos, estruturas de geração de emergência.

O tema deixou de ser uma discussão restrita ao setor de tecnologia. Nos últimos meses, moradores, prefeituras, órgãos ambientais e governos de diferentes países passaram a questionar como e onde esses empreendimentos devem ser instalados.

Em alguns lugares, a discussão envolve o consumo de água. Em outros, o barulho permanente dos equipamentos de refrigeração, a presença de geradores a diesel, a proximidade com casas e escolas ou os efeitos sobre a rede elétrica.

Um dos casos mais recentes aconteceu justamente nesta segunda-feira (28), na Austrália: uma empresa desistiu de um projeto de US$ 1,2 bilhão em Sydney depois da reação da comunidade.

A discussão ganha relevância no Ceará porque o Estado já está no centro desse movimento.

O caso do Ceará

O empreendimento em construção no Complexo Industrial e Portuário do Pecém, em Caucaia, é desenvolvido pela Omnia Data Centers para a ByteDance, controladora do TikTok.

O governo do Ceará informa investimento de aproximadamente R$ 200 bilhões e expectativa de geração de 4 mil empregos. A primeira etapa das obras começou em janeiro de 2026. Em maio, o governo informou que as obras estavam avançadas e que discutia com representantes do TikTok as próximas etapas do projeto.

A dimensão do empreendimento, porém, colocou questões ambientais e de infraestrutura no centro de uma disputa judicial.

Em setembro, o Ministério Público Federal e a Defensoria Pública da União ingressaram com ação para impedir o início da operação até que sejam realizadas consulta livre, prévia e informada ao povo indígena Anacé e um Estudo de Impacto Ambiental e Relatório de Impacto Ambiental (EIA/Rima). A ação também pede estudos e monitoramento sobre recursos hídricos, sistema elétrico, ruído e impactos sobre as comunidades.

Segundo o MPF e a DPU, o empreendimento ocupa aproximadamente 70 hectares e prevê duas edificações principais, estruturas de apoio, subestação elétrica, estação de tratamento de esgoto, captação de água subterrânea e 120 geradores a diesel.

Outro ponto levantado na ação é o consumo de água. Segundo documentos citados no processo, a previsão teria passado de 19,7 mil litros por dia na licença prévia para 144 mil litros por dia na licença de instalação, aumento superior a 600%.

A questão está em discussão na Justiça e não significa que os impactos apontados pelo MPF estejam definitivamente reconhecidos como danos. São, neste momento, questionamentos e pedidos apresentados pelos órgãos públicos no processo judicial.

Há também uma dimensão energética. Em maio, a Omnia anunciou um contrato de 20 anos, de aproximadamente US$ 2 bilhões, com a Casa dos Ventos para fornecimento de energia renovável ao complexo.

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É nesse ponto que a experiência internacional ajuda a colocar o debate em perspectiva.


1. Sydney, Austrália: projeto de US$ 1,2 bilhão é abandonado

O caso mais recente aconteceu em Lane Cove, no norte de Sydney.

A Goodman Group anunciou nesta segunda-feira (28) que não levará adiante o chamado Project Mars, um data center de 90 MW avaliado em cerca de A$ 1,2 bilhão.

O empreendimento ficaria a aproximadamente 20 metros da residência mais próxima e a cerca de 160 metros de uma escola pública.

O projeto enfrentava forte oposição de moradores e organizações comunitárias. A empresa afirmou que levou em consideração tanto as mudanças no ambiente regulatório quanto as manifestações recebidas durante o processo de planejamento.

O abandono não foi apresentado pela empresa exclusivamente como consequência dos protestos, mas a oposição da comunidade foi parte relevante do processo que envolveu o empreendimento.

O caso virou um exemplo de uma questão que está aparecendo em diferentes cidades:

até que ponto um empreendimento de grande porte pode ser instalado próximo a áreas residenciais?


2. Kronstorf, Áustria: Google enfrenta protestos em cidade de 3,5 mil habitantes

Em Kronstorf, uma pequena cidade austríaca com cerca de 3.500 habitantes, o Google está construindo um data center que poderá ocupar aproximadamente 50 hectares.

Em setembro, entre 350 e 400 pessoas participaram de uma manifestação contra o empreendimento.

Os moradores questionam o consumo de energia e água e os efeitos sobre o rio Enns. Também há preocupação com os geradores de emergência.

Na primeira etapa aprovada, estão previstos 36 geradores a diesel, com capacidade para armazenar até 792 mil litros de combustível. Segundo o ORF, o projeto pode chegar a uma capacidade de 150 MW inicialmente e até 500 MW em uma segunda fase. A primeira etapa poderia consumir até 1,31 TWh de eletricidade por ano, volume comparável ao consumo anual de cerca de 375 mil residências.

O caso provocou ainda uma discussão sobre a necessidade de avaliação ambiental mais abrangente.

É uma questão que interessa particularmente ao debate cearense:

quando um empreendimento passa a ser grande o suficiente para exigir uma avaliação diferente daquela aplicada a uma instalação convencional?

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3. Thane, Índia: moradores descobrem a dimensão de um projeto da Amazon

Em Thane, na região metropolitana de Mumbai, moradores inicialmente receberam com expectativa a notícia de um investimento da Amazon.

A percepção mudou quando detalhes do projeto começaram a ser conhecidos.

Segundo reportagem do Indian Express, o data center ocupará aproximadamente 53 acres e foi projetado para uma demanda de 422 MW. O projeto também prevê 193 geradores de emergência.

Moradores passaram a questionar o impacto sobre água, energia, ruído e infraestrutura urbana.

Há, porém, uma importante contraposição: a própria Amazon afirma que o empreendimento não utilizará água para refrigeração, adotando tecnologia de circuito fechado, e diz que não utiliza água potável da comunidade para esse fim em seus data centers na Índia.

Ou seja: o caso também mostra como a discussão pública precisa separar preocupações levantadas pela população de informações técnicas apresentadas pelas empresas.


4. Petaling Jaya, Malásia: 290 objeções e projeto retirado

Em Kota Damansara, em Petaling Jaya, na Malásia, os moradores esperavam que um terreno próximo às suas casas recebesse um empreendimento comercial.

Quando surgiu a proposta de dois blocos de data center, a reação foi diferente.

Até 21 de julho, a prefeitura havia recebido aproximadamente 290 objeções formais ao projeto. Os moradores levantaram questões relacionadas a ruído, água, energia, trânsito e adequação do terreno.

Em 28 de julho, o consultor do empreendimento retirou o pedido de aprovação para reavaliar a viabilidade e os componentes do projeto.

O caso se tornou um exemplo de como a pressão comunitária pode alterar o destino de um empreendimento ainda durante a fase de aprovação.


5. Cidade do Cabo, África do Sul: data center entra em disputa em região marcada pela crise da água

Na Cidade do Cabo, a preocupação tem uma dimensão particularmente sensível.

A cidade ficou internacionalmente conhecida pela crise hídrica de 2017 e 2018, quando chegou perto do chamado “Dia Zero”, período em que o abastecimento de água corria risco de colapso.

É nesse contexto que grupos comunitários e organizações de direitos digitais questionam a instalação de grandes data centers da Equinix.

O projeto discutido tem potencial de demanda de aproximadamente 160 MW. Organizações que contestam o empreendimento pediram mais informações sobre consumo de água, energia, emissões e ruído.

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Em setembro, uma organização de moradia e um grupo de defesa de direitos tecnológicos recorreram contra a aprovação municipal, alegando que informações fundamentais sobre água, eletricidade e impactos sobre as comunidades não estavam disponíveis quando a autorização foi concedida. O projeto permanece suspenso enquanto o recurso é analisado.

O debate sul-africano levanta uma pergunta simples:

um data center deve ser analisado apenas pelo tamanho do investimento ou também pela disponibilidade de recursos na região onde será instalado?


6. Dallas, Estados Unidos: o problema chegou ao quintal dos moradores

Em Joppa, bairro de Dallas, o problema não é uma projeção de consumo futuro.

É o barulho.

Moradores passaram a reclamar do ruído produzido por um data center instalado próximo às residências. Segundo relatos publicados pela KERA, o som se assemelha ao de um avião prestes a decolar.

A comunidade também questiona o consumo de água e os possíveis efeitos sobre a conta de energia.

O caso ganhou uma dimensão adicional porque Joppa é uma comunidade historicamente afetada por atividades industriais e questões ambientais. Moradores afirmaram que não sabiam que um data center seria instalado tão próximo de suas casas.

A prefeitura informou, segundo a reportagem, que o uso era permitido pelo zoneamento existente e, por isso, não houve necessidade de uma mudança de zoneamento que exigisse votação específica do conselho municipal.

A discussão, portanto, não é apenas:

“Pode construir?”

Mas também:

“O zoneamento existente foi criado pensando em instalações desse tamanho e com esse tipo de impacto?”


7. San José, Califórnia: tecnologia no quintal

Em San José, coração do Vale do Silício, moradores de South San José também reclamam de data centers instalados próximos às suas casas.

Os relatos envolvem um zumbido constante e luzes intensas direcionadas para os quintais. Segundo moradores, o ruído fica mais forte quando as temperaturas sobem.

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O prefeito chegou a se reunir com residentes enquanto a cidade avalia se suas regras precisam ser fortalecidas.

A situação é particularmente interessante porque San José também busca atrair investimentos relacionados à inteligência artificial.

Ou seja, a mesma cidade pode estar diante de duas demandas simultâneas:

atrair a nova economia digital e, ao mesmo tempo, estabelecer regras para os efeitos físicos dessa economia sobre os bairros.


8. North Devon, Reino Unido: um campus de IA em área rural

No norte de Devon, na Inglaterra, a discussão ganhou outra escala.

Uma empresa propõe construir em Great Torrington um campus de inteligência artificial de aproximadamente 1,5 GW, acompanhado por um sistema de armazenamento de energia de 1,8 GW.

O empreendimento ocuparia uma área de aproximadamente 344 hectares, equivalente a cerca de 850 acres, dentro de uma paisagem associada a uma reserva da biosfera reconhecida pela Unesco.

O projeto prevê cinco grandes edifícios, alguns chegando a 130 pés de altura.

Moradores e organizações locais questionam o impacto sobre a paisagem, a água, o tráfego, a infraestrutura e a transparência do processo de planejamento.

A empresa, por outro lado, afirma que apenas parte da área seria efetivamente construída e que o restante teria usos públicos ou seria destinado à criação de habitats.

O conflito mostra outro aspecto da expansão da inteligência artificial:

qual é o lugar adequado para uma infraestrutura digital que, fisicamente, pode ocupar centenas de hectares?


O que os oito casos têm em comum?

Os exemplos estão em países e contextos completamente diferentes. Não é possível simplesmente transferir as experiências de Sydney, Dallas ou Kronstorf para o Ceará.

Mas existe uma coincidência importante: as mesmas perguntas aparecem repetidamente.

Água

Quanto será consumido? De onde virá? Qual será o impacto sobre os demais usuários?

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Energia

Qual será a demanda máxima? A infraestrutura existente suporta o empreendimento? Quem paga pelos investimentos necessários na rede?

Geradores

Quantos geradores de emergência serão instalados? Qual combustível utilizarão? Com que frequência serão testados? Quais serão as emissões?

Ruído

Qual será o nível de ruído durante a operação normal? E durante testes dos equipamentos?

Localização

Qual é a distância para residências, escolas, áreas ambientais e comunidades tradicionais?

Transparência

A população consegue conhecer os números antes da operação começar?

Benefícios

Quantos empregos permanecem depois da construção? Quais impostos e investimentos ficam no município? O empreendimento demanda infraestrutura pública?

Fiscalização

Quem acompanhará os indicadores de água, energia, ruído e emissões depois que o data center estiver funcionando?


E é justamente aí que o debate chega ao Ceará

O Ceará não está apenas assistindo à expansão mundial dos data centers.

O Estado já está dentro dela.

O projeto da ByteDance no Pecém é apresentado pelo governo como um dos maiores investimentos da história do Ceará. O Estado também anunciou outros projetos de data centers. Em agosto, o Conselho Nacional das Zonas de Processamento de Exportação aprovou mais um empreendimento para o Pecém, ligado à Voltalia, com investimento anunciado de R$ 181,7 bilhões.

Isso significa que a discussão não termina no data center do TikTok.

Se o Ceará se consolidar como polo de infraestrutura digital, a quantidade de empreendimentos e a demanda por energia, água, terrenos e infraestrutura poderão crescer significativamente.

Ao mesmo tempo, há argumentos econômicos importantes a favor desses investimentos: geração de empregos, atração de capital, infraestrutura tecnológica, utilização de energia renovável e inserção do Estado na economia digital.

O ponto que os casos internacionais colocam na mesa não é necessariamente ser contra ou a favor dos data centers.

É outro:

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Quais regras uma cidade ou um Estado precisa estabelecer para receber esse tipo de empreendimento sem descobrir os impactos somente depois que ele estiver funcionando?

No Ceará, essa discussão já ganhou dimensão institucional. O MPF e a DPU pedem na Justiça, entre outras medidas, monitoramento dos impactos hídricos e energéticos, controle de ruído, acompanhamento dos geradores a diesel, consulta aos Anacé e divulgação periódica de indicadores de eficiência hídrica e energética.

Enquanto isso, a experiência internacional mostra que a discussão está longe de ser exclusivamente cearense.

Em Sydney, um projeto bilionário foi abandonado.

Em Petaling Jaya, uma proposta foi retirada depois de centenas de objeções.

Em Kronstorf, moradores foram às ruas.

Em Dallas e San José, o ruído chegou ao cotidiano das famílias.

Na Cidade do Cabo, a discussão envolve água e energia.

Em North Devon, a preocupação está relacionada ao território e à paisagem.

E em Thane, a população questiona a escala do empreendimento — enquanto a Amazon contesta especificamente as alegações sobre uso de água para refrigeração.

O Ceará agora enfrenta sua própria versão dessa discussão.

A pergunta que fica para a sociedade cearense é: quais informações deveriam estar disponíveis para a população antes que um data center dessa dimensão entre em operação? E quais limites, contrapartidas e mecanismos de fiscalização deveriam acompanhar a chegada dessa nova indústria ao Estado?

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