Tiririca perdeu. E ao culpar o “santo de casa” — o Ceará, sua terra natal — pelo fracasso nas urnas, o humorista revelou algo mais incômodo do que a simples frustração de um político derrotado: a incapacidade de assumir a própria responsabilidade por uma trajetória de declínio que ele mesmo construiu, eleição após eleição, voto após voto.
A frase “santo de casa não faz milagre” é uma daquelas expressões que carregam uma autoabsolvição embutida. Ela sugere que o problema não está em quem fala, mas em quem ouve. Que o talento existe, mas não é reconhecido. Que o valor é real, mas o ambiente é ingrato. Aplicada à derrota de Tiririca no Ceará, a lógica é perversa: o eleitor cearense seria o “santo” que falhou — não o candidato que não convenceu.
O que os números dizem — e o que Tiririca prefere ignorar
Os números contam uma história que dispensa milagres. Tiririca recebeu 5.523 votos no Ceará, o equivalente a 0,10% dos votos válidos do estado . Não foi uma derrota apertada. Não foi uma disputa acirrada perdida por detalhes. Foi uma rejeição praticamente unânime, um resultado que coloca o humorista muito abaixo não apenas dos eleitos, mas de centenas de candidatos cearenses que jamais tiveram uma fração de sua exposição midiática.
E não se trata de um acidente isolado. A votação de Tiririca despencou de forma vertiginosa desde o auge de 2010: de 1.353.820 votos para 1.016.796 em 2014, depois 453.855 em 2018, até chegar a 71.754 em 2022 — a menor votação entre todos os deputados federais eleitos por São Paulo naquele ano . A mudança para o Ceará não foi uma aposta estratégica ousada. Foi uma tentativa desesperada de fugir de um eleitorado paulista que já havia dado sinais claros e inequívocos de cansaço.
O mito da “reconexão com as raízes”
Quando anunciou a transferência para o Ceará, em 2025, Tiririca declarou: “É uma felicidade imensa estar de volta ao meu Ceará e, se Deus quiser, vamos fazer um mandato sensacional” . A retórica da reconexão com as origens soava convincente — até as urnas falarem mais alto.
O que Tiririca parecia não compreender é que o vínculo que um político constrói com o eleitorado não se transfere automaticamente com o título de eleitor. Durante 16 anos, ele foi eleito por São Paulo, construiu sua carreira política em São Paulo, teve seu gabinete em São Paulo, atendeu demandas de São Paulo. O Ceará era, para efeitos práticos, uma memória afetiva, não uma base política. Nasceu em Itapipoca, mas fez carreira no Sudeste, longe das demandas e das realidades do estado natal .
A “volta às raízes” não passou de um cálculo eleitoral. E os eleitores cearenses — que não são ingênuos — perceberam.
O que Tiririca fez na Câmara, afinal?
Se a frase “santo de casa não faz milagre” pretende sugerir que Tiririca foi vítima de um eleitorado que não soube reconhecer seu valor, vale a pena examinar o que, exatamente, esse valor produziu.
Em 16 anos como deputado federal, Tiririca fez apenas seis discursos em plenário desde 2011 . Sua atuação legislativa mais destacada foi um projeto que alterava a Lei Rouanet para reconhecer a atividade circense como manifestação cultural nacional — aprovado nas comissões da Câmara em 2017, mas arquivado pelo Senado em 2024 . O discurso mais lembrado de sua trajetória foi justamente aquele em que anunciou, em 2017, que estava decepcionado com a política e não disputaria outra eleição. Voltou atrás no ano seguinte .
A assiduidade nas votações, frequentemente citada como seu principal trunfo, é o mínimo que se espera de um parlamentar. Não é um mérito extraordinário. É obrigação.